Este blogue chegou hoje (17-09-2015) às 66666 vizualizações

quarta-feira, 5 de julho de 2017

O VALOR DO DINHEIRO


Quando 1ooo réis (1 escudo) valia mais que 1 dólar.

sábado, 1 de abril de 2017

Braga: a mais bonita cidade de Portugal

Arco da Porta Nova.
Largo do Paço, e chafariz dos castelos.
Um velho quiosque a necessitar de restauro. Por favor não o deixem morrer.
Café A Brasileira. Tive o prazer de tomar um "café de saco". Quantos ainda servem este tipo de café?


quarta-feira, 1 de março de 2017

Cagido: Óvoa

Para nós é o mais antigo lugar da freguesia de Óvoa; neste lugar encontram-se vários vestígios arqueológicos de época romana.

Os primeiros escritos que temos conhecimento sobre Cagido tem data de 12 de Março do Ano de 1291. Encontram-se na Chancelaria de D. Dinis Livro II. Documento 15, publicado por Rosa Medeiros. 

Em 1527  o lugar de cagydo tinha 21 moradores; scilicet fogos. Possivelmente 84 habitantes.
Em 1751 tinha 38 vizinhos;  scilicet fogos. Possivelmente 160 habitantes.
No censo de 1911 tinha 225 habitantes, e 52 fogos.
No censo de 1940 tinha 281 habitantes, e 74 fogos.
No censo de 1960 tinha 267 habitantes, e 65 fogos.
No censo de 1970 tinha 164 habitantes, e 58 fogos.
No censo de 1981 tinha 250 habitantes, e 75 fogos.
No censo de 1991 tinha 224 habitantes, e 83 fogos.

Capela dedicada a Santo Ovídio
Fonte
Antigo lavadouro no mesmo local da fonte.
Muita roupa aqui foi lavada.
Casa de gente abastada, agora em ruínas.
Acrescento em tabique.




Continuam as ruínas na zona que foi o coração da aldeia.
Lavadouro de época recente, agora em total abandono.
Tinha de aparecer o tijolo.
Uma velha calçada; num dos vários acessos ao largo da povoação.









segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O CORREIO NAS MEMÓRIAS PAROQUIAIS DE 1758: FREGUESIAS DO DISTRITO DE LISBOA.

Acabamos de publicar o nosso XIII trabalho sobre o correio nas memórias paroquiais de 1758.
Mais um trabalho inédito na sua globalidade.

sábado, 28 de janeiro de 2017

OS PORTUGUESES AO SERVIÇO DA FÉ E DA CIVILIZAÇÃO DO OCIDENTE


Agora reaproveitado foi um dos primeiros trabalhos, que publicamos na WEB em 1998.

OS PORTUGUESES
AO SERVIÇO DA FÉ E DA CIVILIZAÇÃO DO OCIDENTE

 CONFUNDIRAM os guerreiros cristãos da época dos Cruzadas, a evangelização com a conquista, certos como estavam de que só na prática do Evangelho existia redenção de pecados e salvamento de almas. Por isso armaram hostes, aprestaram frotas e em demanda dos lugares santos partiram os monges cavaleiros para a conquista da Palestina. Era a guerra sem tréguas entre a Cruz e o Crescente, entre o Evangelho e o Corão.
 Esta guerra, que muitos foram travar longe, pensaram outros que a poderiam travar mais perto, e conseguiram, sem tomar o caminho dos mares, alcançar o mesmo fim.
 Não só no Oriente existiam mouros. Grande parte da Ibéria estava nas mãos de muçulmanos e os réis infiéis da Península eram inimigos de temer e reinavam em terras de tentar. Não admira, portanto, que nos cérebros dos príncipes cristãos germinasse a ideia de expulsar da Europa os soberanos que não professavam a mesma lei e entre si repartirem o quinhão magnífico dos califas.
 E assim nasceram as Cruzadas do Ocidente, aconselhadas, abençoadas e favorecidas pelos papas com as mesmas graças, privilégios e indulgências com que a Igreja havia distinguido as outras.
 Entre os príncipes que tomaram a peito o alargamento do domínio cristão na Península, figura como um dos mais aguerridos e empenhados nessa empresa o conde D. Henrique de Borgonha, bisneto de Roberto II, rei da França, e pai do primeiro rei português. O conde D. Henrique teve como primeiro domínio na Ibéria o condado de Portugal, que lhe foi dado como recompensa de serviços prestados à Fé por D. Afonso III, rei de Leão.
 Senhor do Condado, D. Henrique pensou em lhe alargar o âmbito e a sua descida vitoriosa marca o início de Portugal como nação cristã e livre. Era, porém, a seu filho, a D. Afonso Henriques que o destino havia escolhido para em passadas largas de gigante, talhar na terra muçulmana esse reino a que estava reservado o papel futuro de dar aos outros povos a noção prática do tamanho do mundo.
 Para que um elo forte unisse as duas Cruzadas -- a do Oriente e a do Ocidente -- quis ainda o destino que os guerreiros que iam para a Terra Santa combater, à terra portuguesa apartassem e ajudassem o rei a estender-lhe as fronteiras. Aqui se reuniram os paladinos duma mesma ideia e juntos pelejaram contra o mesmo inimigo, trazendo idênticos sinais nos guiões e nas armaduras.
 Rechaçados de cidade em cidade, de castelo em castelo, defendendo palmo a palmo a terra que fora sua, os árabes foram descendo, impotentes para arrostar o ardor das armas cristãs. Uma civilização requintada havia amolecido os chefes, e o povo, habituado à paz, não acordou rapidamente para a defesa do torrão. Coimbra, Leiria, Santarém, Lisboa, Sintra, foram-se rendendo uma após outra. Desengrazava-se o colar e as pérolas iam caindo nas mãos do rei Conquistador. Progredia em espaço e em ideal a Cruzada do Ocidente.
INÍCIO DA MARINHA DE GUERRA ENTRE NÓS
 Nos primeiros anos do século XII, os povos cristãos do ocidente da península hispânica, começaram a usar de marinha de guerra, isto é, de navios de propósito construídos, com as suas companhias disciplinadas para os combates e expedições marítimas. Para obstar ás devastações dos sarracenos, que, saindo de Sevilha, Silves e Lisboa-moura, faziam repetidos assaltos no litoral português, galego e asturiano. Mandou o célebre bispo de Compostela, Diogo Gelmires, vir de Génova operários e pilotos para duas galés, que tripulou com soldados e marujos de Patron.
Estas galés, visitaram as costas do Al-Gharb, causando grandes danos, e destruindo muitos navios árabes.
No começo da monarquia portuguesa, e ainda, em tempo de D. Teresa, existiam já navios preparados para combate; todavia só do reinado de D. Sancho II, apareceram documentos mencionando corpos de marinheiros sujeitos a certa organização, com seus chefes, privilégios, etc.
D. Sancho II, pode afirmar-se, teve uma verdadeira armada, composta de vasos de diferentes grandezas e, destinada ás guerras marítimas contra os mouros.
Fez construir engenhos para por a nado ou encalhar as galês, e tinha um corpo de gente marítima com seu pretor. Este corpo era muito privilegiado. Existe um documento em que Sancho II, proíbe que alguém multe ou de qualquer modo prejudique os seus marinheiros, antes sempre, os defendam e amparem; termina por dizer: -- et nullus de villa potestatem super meos marinarios nisi ego et suus pretor.
Pode dizer-se, pois, que a Sancho II, rei tão simpático quanto infeliz, cuja vida cortada de constantes lutas, teve um ocaso de dramas, se deve a organização regular das primeiras armadas portuguesas, contra os mouros.
 Um século, porém, teria ainda de decorrer até que as armas de Portugal levassem de vencida para além da última praia os últimos mouros do Algarve. Só no meado do século XIII, em 1250, o reino marcava para os séculos, na orla das praias algarvias, as fronteiras que ainda hoje conserva.
 E então findou a primeira Cruzada portuguesa.
A CONQUISTA DE CEUTA
 Da dominação árabe na Península não restava só a memória e nas trovas do tempo ainda a nota magoada do adeus de Bobadil às torres de Granada, não era motivo de comentários. Granada ainda era moura. Não estava morto na Ibéria o poderio muçulmano. Confinado na costa africana, ali existia latente, fortificando-se com o desejo de recuperar um império perdido onde os seus artistas tinham erguido maravilhas e os seus soldados derramado torrentes de sangue.
 A costa africana, vizinha de ao pé da porta, constituía uma ameaça permanente às praias fronteiras. A guerra de corso infestava o Mediterrâneo e as próprias costas do Atlântico sofriam amiudadas vezes as arremetidas dos piratas do Rife. Centenas de cristãos gemiam no cativeiro e remavam como forçados nas galeras do Sultão.
 Ceuta era a guarda avançada dessa costa, cujos recortes se podiam avistar da Europa e portanto o ponto para onde convergiriam as tropas árabes no momento em que intentassem a expedição da reconquista. Logo que o Mestre de Avis viu firmada a paz com Castela, depois de 20 anos de lutas que a vitória portuguesa coroou e que a essa geração de guerreiros magníficos sucedeu outra, ávida de glórias e sequiosa de, mostrar as suas façanhas, tomou forma no espírito do rei uma ideia que há muito o ocupava. Nessa época de exaltarão da Fé, época que o Condestável em pessoa e feitos sintetizava, era bem compreensível a intenção do Mestre. D. João I tinha o seu segredo, em segredo acalentava uma tenção que desejava, antes da morte, ver realizada.
 Muitas vezes o preocupava a ameaça muçulmana, espiando de tão perto as praias do reino e as costas de Espanha.
 Desvendado o segredo a poucos, a pouquíssimos, de concerto com os infantes começou D. João a tratar dos preparativos duma expedição cujo objecto era justamente o assalto daquela praça, que mais de perto ameaçava a paz da Península. Ceuta deveria cair sob o assalto dos portugueses. O Mestre assim o queria e para que lhe não falhasse a arremetida dispôs magnificamente a expedição.
 Tão bem guardado foi o segredo que pelo Reino correram os mais desencontrados boatos sobre os ajustes que por toda a parte se concluíam, e ninguém atinava com a intenção do Rei; no entanto todos viam que alguma coisa se preparava misteriosamente.
 Era, de facto, uma nova Cruzada contra os infiéis que o Rei de Portugal ia levar a cabo.
 Se ao Rei e aos Infantes animava a ideia de combater infiéis, grata aos seus espíritos de cavaleiros cristãos, a João Afonso, financeiro do Reino, também a ideia aprazia.
 A este não era o misticismo religioso, a propagação da Fé, a vitória do Evangelho que o tentava.
 Lisboa já então era um porto de mar importante, a meio caminho entre a Itália e a Flandres, mas o tráfego entre estes dois reinos nunca se poderia fazer com segurança, enquanto o estreito não estivesse livre, enquanto os piratas infestassem as costas, e as armadas mouras de Ceuta pudessem atacar os navegantes. Era, portanto, a conquista dessa praça um empreendimento duplamente interessante por reunir os interesses espirituais e temporais do Reino em uma única conquista a tentar.
 A Espanha também veria com bons olhos a aventura portuguesa. Era de Ceuta que os mouros de Granada recebiam socorros e reforços, e um ponto de apoio cristão ao longo e no ponto culminante da costa marroquina não era auxílio a desprezar nem tentativa a contrariar. Todas estas razões meramente políticas e comerciais juntou D. João I às outras de carácter religioso, que para a África o impeliam. E o assalto da praça foi resolvido.
Ás hesitações do rei quanto à oportunidade da conquista, contrapôs o infante D. Henrique as suas razões e conseguiu que o soberano em pessoa dirigisse a expedição. Ceuta caiu e a sua queda foi o início do grande sonho africano que então começou a rutilar nos cérebros portugueses.
 A grande costa estendia-se ao largo do Mediterrâneo com um grande campo de aventuras, uma grande tentação de domínio, um complemento magnífico para a pequenina e heróica nação, que principiava a estender as asas para mais dilatados voos. O infante sonhara com o Portugal ultramarino e para realização desse grande sonho Ceuta não lhe bastava. Ainda neste devaneio magnífico se encontram reunidos os interesses espirituais e os temporais, os cavaleiros de Cristo e João Afonso. Sabiam os primeiros que para além dessa costa marroquina existia um império lendário cujo soberano professava a doutrina do Evangelho. Os segundos não ignoravam que era através do Sudão africano que chegava a Tunes e ao Egipto o ouro da África.
 Queriam uns ir ao encontro desse rei cristão isolado entre infiéis, queriam os outros encaminhar para diferentes destinos as riquezas da África ignorada e dessas Índias misteriosas e distantes que as lendas apontavam como o reino das pedrarias, o empório inesgotável de todas as riquezas do Mundo. Era por isso que Ceuta não bastava ao sonho do infante.
 Morto o rei, não descansou D. Henrique junto do irmão, para lhe pedir ordens tendentes à conquista de Tânger. D. Henrique queria aproveitar o momento em que a Espanha estava entretida com os mouros de Granada.
 Três anos levou a discutir esta empresa e na demora se explica o insucesso que teve. Foi nesse malfadado cerco que D. Fernando, o Infante Santo, ficou cativo dos mouros. Ou ele ou Ceuta, disseram os árabes, e as Cortes preferiram Ceuta.
 Desde que D. João I lhe vedou o intento ousado, de conquistar Gibraltar, como imprudência desnecessária, D. Henrique foi instalar-se no Promontório e ali, na Sociedade dos Cartógrafos que o acompanhavam, concebeu mais vasto e útil plano.
 Relatos de viajantes, dourados pelas lendas e lendas confirmadas pelos relatos dos viajantes, falavam de terras maravilhosas, continentes ignorados e ilhas perdidas na vastidão dos mares. Isso que a fantasia dava como certo, a ciência do tempo considerava como possível. O mar não devia ser a vastidão deserta e muito pequena seria a terra firme se a sua superfície se limitasse ao mundo conhecido. Sobre isso falavam os sábios e no infante a cada dia que passava mais se ia radicando a ideia de mandar os seus homens à procura das terras ignoradas, perdidas naquele grande mar sem dono.
 Era esta a Grande Cruzada, a maior de todas, a mais legítima e menos cruenta, aquela de que só haveria a colher domínios a acrescentar ao Reino e raças primitivas a civilizar. Nesta ideia se fizeram ao mar as primeiras caravelas do Infante.
 Estava lançada a ideia civilizadora do descobrimento e quando elas voltavam com a notícia duma nova facha de costa ou dum arquipélago novo, duas vitórias tinham ganho os nautas do Promontório: uma traduzido em novas regiões, a juntar à coroa de Portugal; a outra representada por esse desfazer de terrores e superstições que tornavam os Oceanos um reino vedado às pesquisas humanas.
 Só em almas fortes, curiosas de desvendar, fossem quais fossem os riscos que defendiam o Mistério das águas, teria cabido esse propósito de procurar o desconhecido, de rasgar a caligem do Mar Tenebroso, de arrostar com esses monstros que a tradição afirmava estarem sempre de vela a defender os segredos dos mares.
 Os exércitos muçulmanos, mais ou menos numerosos, melhor ou pior apetrechados, eram exércitos de homens que a experiência cristã sabia vulneráveis e mortais. Esses outros inimigos que os primeiros nautas do Promontório partiam a combater, eram fantasmas, demónios ou génios que não morriam de tiros de besta nem de golpes de lança; eram entes sobrenaturais que o terror exaltado tinha criado, seres irreais a que as nuvens, os ventos e as tormentas davam foros de verdadeiros e contra os quais não bastavam a simples valentia e a ciência de pelejar. No entanto, esses homens foram ao encontro de todos os medos, dispostos a encarar os fantasmas e a seguir até às fronteiras do Vedado a rota que lhes fora traçada.
 Foi mais do que ousadia. Foi uma visão profética da Verdade que só pôde caber em almas cheias de fé e em cérebros aptos para todas as concepções. Era o instinto civilizador da Raça a vencer a superstição e a desfazer as lendas que o terror do desconhecido criara em espíritos mais débeis. Era a primeira grande vitória da inteligência clara sobre a névoa fantasiosa e terrífica em que a mentalidade acanhada desse tempo envolvera todos os rasgos da curiosidade científica da aventura. As primeiras caravelas que partiram de Sagres foram bem os arautos da Civilização do Ocidente, que levaram unidos num grito, o nome de Portugal e o nome de Cristo, a milhões e milhões de almas que desejavam, sem compreender, o advento duma Verdade eterna.
Esta foi a mais bela das Cruzadas do Ocidente.
 A luta contra os mouros, luta de ocupação e de domínio, em nome de um princípio religioso, guerra que se fazia para alargar o âmbito da cristandade, substituindo o dogma pelo dogma, padecia nos seus resultados do carácter teológico, de que enfermava. A Fé cristã, pelo facto da conquista, não brotava espontaneamente nas almas. O mouro submetido aceitava o Evangelho não como lei rudimentar, mas com uma imposição que devia suportar e actuar para ter direito à existência.
 Além desta diferença de credo, pouco ou nada o Ocidente podia oferecer aos árabes. No campo das ciências teria mais que aprender do que ensinar.
 Outro tanto não aconteceu com a Cruzada Portuguesa. Os habitantes das terras que os nautas iam descobrindo eram seres virgens de toda a civilização, almas selvagens em toda a pureza do termo e, portanto, terrenos aptos e próprios ao lançamento e germinação da semente da Boa Nova, da Lei que prega a igualdade e a dignificarão de todos os homens. A par da missão teológica de ensinar as gentes nos princípios da Fé, coube também aos Portugueses iniciar esses povos nos métodos e processos da civilização latina. Os missionários que ficavam nas terras descobertas e os colonos que do Reino para lá partiram levavam consigo a ciência das indústrias; ensinavam a tecer, a semear, a construir. Ajeitaram as mãos ociosas dos nativos aos engenhos e às ferramentas dos civilizados. Alargado o caminho dos mares, sucederam-se os descobrimentos, e as terras novas que iam aparecendo faziam esquecer dia a dia a África muçulmana. Çafim, Azamor, Arzila, Alcácer-Sequir, foram abandonadas.
 De todo o luso domínio no Norte africano, restavam apenas Ceuta, Tânger e Mazagão.
 Esta última ainda resistiu com brilho e êxito ao cerco de 1562.
 Rui de Carvalho, comandante da praça, cobria-se de glória e a vitória portuguesa foi celebrada solenemente no Concílio de Trento.
 Até ao sonho de D. Sebastião, pouco mais havia que dizer sobre esse domínio do Norte da África e dos resultados trágicos desse sonho; mais vale não dizer uma vez que nos propomos falar apenas de Portugal como arauto da Civilização do Ocidente. Uma simples nota: 354 anos depois da tomada de Ceuta nada possuíam os portugueses em Marrocos. Campo mais vasto para essa obra era o Brasil, mais vasto e mais adequado para a realização daquilo que pretendiam fazer.
 Foi aí, foi nesse domínio gigante, que a obra civilizadora de Portugal operou maravilhas. Nem as gentes, nem a selva, nem as febres tolheram a missão colonizadora de Portugal, nesse território imenso que ainda hoje, séculos volvidos, tem mistérios e riquezas a desvendar!
 Ao longo da costa intérmina foram-se estabelecendo aldeias, levantando igrejas, agregando povoados. Aos poucos, porque mesmo que Portugal inteiro se despovoasse, escassa seria ainda a população para ocupar tantíssimas léguas de domínio, se foi realizando a imigração; devagar se foram lançando os alicerces desse novo império; as naus iam e vinham e enquanto elas faziam o caminho dos mares, os Portugueses iam conhecendo a terra, iam desbravando as matas, iam sondando as entranhas das rochas à cata de metais preciosos.
 Os colonos da última terra africana do Norte, os habitantes de Mazagão, abandonada voluntariamente a cidade, ali apartaram para construir o Mazagão brasileiro.
 Todas as ambições de possuir terra lá cabiam, porque ela sobrava e então as aldeias se foram transformando em vilas e estas em cidades. A Civilização do Ocidente ia, pouco a pouco, criando para o Mundo uma das maiores nações.
 E Portugal foi o arauto dessa Civilização europeia, em todas as terras que descobriu, nos reinos que conquistou em todo o lugar onde chegaram os seus missionários, os seus capitães e os seus comerciantes.
 Ainda hoje é fácil verificar a extensão pelo que da nossa língua ficou nas terras onde apartaram e que foram seus domínios.
 De Sagres partiu para o mundo a primeira mensagem da Civilização latina aos povos bárbaros de todas as latitudes; por isso querem os Portugueses para eles uma glória que lhes não pode ser negada: a de haverem sido, em toda a terra até então desconhecida, os arautos da alma e do cérebro da Latinidade Cristã.
1420: RECONHECIMENTO DA ILHA DA MADEIRA
 Segundo o historiógrafo, padre Fernando Augusto da Silva, "são inumeráveis as composições em prosa e verso, tanto em vernáculo como em línguas estrangeiras, que cantam e enaltecem as conhecidas e já proverbiais belezas da Madeira ". Também há quem afirme que foi na paisagem da ilha da Madeira, que Luís de Camões foi encontrar o cenário perfeito e idílico para o episódio dos "Lusíadas", referente à "Ilha dos Amores", durante tantos anos censurado dos estudos de linguística, no nosso país... Além de Camões, outros homens de letras não se cansaram de utilizar todas as impressões que o arquipélago lhes deu, referindo-as nos seus escritos. Entre eles, contamos: Castilho, Júlio Dinis, Antero de Quental, Bolhão Pato, Afonso Lopes Vieira, António Nobre, entre outros, uns mais antigos, outros mais recentes. Mas não foram os portugueses, os únicos que se encantaram com as belezas naturais da região. Salientamos, por isso, o nome de Humboldt, talvez o mais famoso naturalista, o qual colocou a hipótese de que a ilha Phaecia, de Homero, em tudo correspondia à Madeira, enquanto Bacon chegou, inclusivamente, a escrever uma pequena epopeia a que chamou Atlantis. Não é por acaso que lhe chamam a " pérola do oceano".
 Falar do descobrimento e subsequente exploração do território, é falar de uma problemática que tem vindo, ao longo da História, a causar alguma controvérsia dentro do seio da historiografia portuguesa; aliás, tal como os Açores. Na verdade, não se encontra um suficiente número de documentos que comprovem esta ou aquela data. Mas uma certeza temos: foi o primeiro território a entrar dentro do vasto rol das terras descobertas pelos portugueses. Os nomes de Gonçalves Zarco e de Tristão Vaz, são vulgarmente associados ao descobrimento das ilhas, se bem que, actualmente, sejam considerados, sim, como os primeiros colonizadores da Madeira. . A sua colonização terá começado, oficialmente, em 1425, segundo a Carta de doação do infante, de 1460, na qual faz a "doação espiritual" à Ordem de Cristo. Inicialmente, para a sua administração e povoamento, o arquipélago foi dividido em três capitanias: a do Funchal, a do Machico e a de Porto Santo, as quais foram confiadas, respectivamente, aos capitães-donatários João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz e Bartolomeu Perestrelo.
 Até ao fim do século XVI, tornou-se numa "metrópole secular e eclesiástica dos nossos domínios ultramarinos, empório da nossa navegação e comércio coloniais (... ) ".
 As prerrogativas dos capitães-donatários, as quais contemplavam plenos poderes à excepção da "pena de morte ou talhamento de membro", foram, com o tempo, reduzidas. Já em 1447, D. Manuel ainda a restringiu mais, retendo na coroa os poderes que a Ordem de Cristo aí tinha. Ficava, assim, o território, completamente subordinado à nação, como património integrante dela.
 A primeira grande riqueza que a ilha deu aos descobridores portugueses, foi a cultura da cana-de-açúcar, cultura introduzido pelo infante D. Henrique e proveniente da Sicília. Esta "indústria" teve o seu início logo com os primeiros povoadores do arquipélago, tendo prosperado de uma forma notável, devido ao clima ameno da região, tanto no séc. XV como no séc. XVI. Foram conseguidas grandes riquezas com esta cultura, que era exportada para os principais mercados europeus.
 Este tipo de produção, na altura de grandes traços artesanais, dependia daquilo a que se convencionou chamar de "engenho", estando dele dependente toda a produção. No tempo do infante, que era o senhor da ilha, era-lhe entregue um terço da produção. Até à absorção da coroa portuguesa pela de Espanha, em 1580, a importância da ilha como produtora de cana sacarina, assumiu, cada vez mais, uma maior importância. Depois desta data, essa produção decaiu bastante, tendo a importância da ilha, neste sector, perdido força a favor da afluência dos açúcares do Brasil e das outras colónias espanholas do sul da América. Já só com o período da Restauração, é que a Madeira voltou a ganhar o fulgor de outros tempos.
1432: GONÇALO VELHO NOS AÇORES
 No ano hoje abordado, uma grande parte do mundo ocidental, chorava a morte na fogueira de Joana D'Arc, ocorrida no ano anterior. Jeanne darc, foi filha de camponeses de Dom Remy, na Lorena, tendo nascido por volta de 1412. Surgira na Europa em 1429, à frente de uma rebelião contra o invasor inglês, tomando o comando da libertação de Orleães e na coroação do Delfim em Reims, acreditando que essa seria uma missão divina (daí o cognome, a virgem de Orleães). No ano seguinte, em 1430, é aprisionada pelos borguinhões, sendo entregue aos ingleses. Em plenas sangrias, é queimada como herege, em 1431, em Rouen.
 O aparecimento de Joana D'Arc, inflamou o sentimento nacional dos franceses e abalou o poder dos ingleses na França. Deixamos como nota, os factos da sua sentença ter sido revogada, pelo papa, em 1456 e de ter sido canonizada em 1920.
 A guerra dos Hussitas, na Boémia, decorrida entre 1419 e 1436. A sua origem também esteve numa condenação à fogueira, a de Jan Hus. Esta guerra viu campanhas devastadoras nos vizinhos territórios alemães, nos quais os Hussitas, os adeptos checos de Jan Hus, se bateram em terríveis combates para vingar a morte do seu líder.
 As consequências foram o enculturamento checo no interior da Boémia, com a repulsão do poder real da influência alemã e da igreja católica. A nobreza enriqueceu com os bens eclesiásticos, tendo a situação dos camponeses piorado.
 Também, neste período, estamos em pleno Concilio de Basileia (l431-1449), no qual se consegue a união com a parte moderada dos Hussitas, mediante a garantia eucarística de duas formas: nenhuma realização de reformas eclesiásticas e oposição do papado à doutrina apresentada pelo Concílio da superioridade deste perante o papa. Isto ficou conhecido pela teoria conciliar.
 Já em 1431, começam a surgir Cartas régias assinadas pelo infante D. Duarte, em nome do rei. D. João I. O primeiro infante, já com 41 anos de idade, subiria ao trono de Portugal em 1433, com 42 anos, imediatamente a seguir à morte de seu pai, em Lisboa, a 15 de Agosto.
 Entre 1431 e 1433, é escrita a Crónica do Condestabre de Portugal, de autor anónimo, crónica que foi, mais tarde, aproveitada por Fernão Lopes. É mais um ano de peste. Neste é conseguido, definitivamente, alcançar o Tratado de paz com Castela.
 Estabelece-se a indivisibilidade nos aforamentos perpétuos de bens da coroa, dá-se o nascimento do príncipe D. Afonso, futuro D. Afonso V, em Sintra, a 15 de Janeiro.
 É, também, a data provável do descobrimento da ilha de S. Miguel, nos Açores, desembarcando, posteriormente, na praia dos Lobos, na ilha de Santa Maria, a expedição de Gonçalo Velho com o fim de proceder ao seu povoamento.
 Segundo a História e a moderna historiografia (Prof. Damião Peres), o arquipélago foi descoberto, inicialmente, em 1427, por Diogo de Silves, navegador da Casa do infante D. Henrique.
À data hoje tratada, todas as ilhas eram conhecidas, à excepção das Flores e do Corvo, as quais só seriam atingidas em 1452, numa altura que, já estando os portugueses estabelecidos, procediam às primeiras viagens para Ocidente.
 O povoamento das primeiras ilhas, foi feito, essencialmente, com famílias alentejanas e algarvias, donde será quase evidente inferir das raízes da típica pronúncia das ilhas adjacentes. Frei Gonçalo Velho, foi o homem encarregue da missão.
 Durante séculos, as suas populações foram o alvo preferencial de corsários e piratas, devido ao importante papel estratégico que desempenharam nas viagens de retorno da Índia.
 Argelinos, franceses, ingleses, os "corsários" Cumberland, Essex e Raleigh, saquearam durante décadas as povoações do litoral de várias ilhas. O próprio Colombo, aportou a Santa Maria na sua viagem de regresso da descoberta do Novo Mundo.
1447: SEGUNDA PARAGEM NAS VIAGENS DE EXPLORAÇÃO
 Os descobrimentos portugueses, para além das ilhas dos Açores e da Madeira, ganharam o seu grande impulso com o reconhecimento da costa Norte africana. Da África desse tempo e de tempos anteriores, pouco ou nada aprendemos nas escolas. Por isso entendemos que cabe aqui, falar um pouco da África Medieval.
 A Norte do continente, o domínio do camelo abriu o território do Sahara, desde sempre isolado pela seca, ligando o Sudão, económica e intelectualmente a um vasto mundo. O lslão abrira, definitivamente, a costa Oriental aos países do Médio Oriente.
 Desde a Idade Média, a cultura Kisaliana prepara, ao longo de séculos, a sociedade política luba, do séc. XV, embora já fosse referida desde o séc. VIII. Estendia-se do rio Zambeze, aos planaltos do Zimbabwe. apoiada na criação de gado bovino que enriquecia os povos aí existentes. O Zimbabwe torna-se, já na altura dos Descobrimentos, o principal centro político e monumental.
 Na costa Oriental africana, organizam-se urbes mercantis desde o séc. IX, as quais assimilaram a cultura árabe. Mais a Sul, amadurece a civilização suahíli, nação africana com componentes exteriores importantes.
 Já desde o séc. X, a Etiópia cristã perdura (a tal do Preste João ... ). Desde o séc. XIII até à altura dos Descobrimentos, fortalecia a associação do poder político com a Igreja, impondo todo um enculturamento ás regiões vizinhas.
 Por outro lado, também os territórios núbios floresceram à luz do cristianismo, mas sucumbem ante o avanço do islamismo, especialmente a partir do séc. XIII.
 Em Portugal, neste ano, realizam-se cortes em Évora. O motivo principal da convocação deste acto solene, relaciona-se com a votação de pedidos destinados às festas em honra do casamento entre D. Afonso e D. Isabel.
 Por Carta régia, é concedido a D. Pedro a isenção do pagamento da dizima das mercadorias trazidas ao reino, pelos moradores da "sua ilha", a de S. Miguel, nos Açores. Este tipo de medida, vinha sempre inerente às necessidades de atrair colonos para o povoamento dos territórios descobertos.
 Estes actos, provocaram uma segunda paragem nas viagens dos navegadores portugueses, na busca de novos territórios, apesar de ser nesta data que Álvaro Fernandes terá chegado à ilha dos bancos. Esta viagem terá tido o seu início na ano anterior, em que terá atingido o rio Casamansa e a enseada final de Varela, no limite norte da actual Guiné-Bissau, passando 110 léguas além de Cabo Verde.
 Álvaro Fernandes, foi um navegador do séc. XV, sobrinho de Gonçalves Zarco, tendo feito parte da expedição encarregada de explorar a embocadura do Senegal e as paragens de cabo-verde, sob as ordens de Lanzarote. No ano seguinte, avançou para adiante do Rio-Grande, até ao lugar que denominou "Cabo-dos-Mastros", regressando, depois, ao porto de Lagos.
 Segundo o cronista Zurara, Álvaro Fernandes dirigira uma expedição distinta da de Lanzarote (ou Lançarote). Passando além de cabo-verde, abordou uma ilha que se supõe ter sido a Gorea. Continuou no ano seguinte a viagem, entrando, apesar da oposição dos indígenas, na embocadura do Tabié. Em consequência, porém, da atitude bélica dos indígenas, regressou a Portugal com a saúde muito abalada devido ao ferimento causado por uma flecha envenenada.
 1447, é também a data da publicação das Ordenações Afonsinas, a 1.ª compilação oficial das leis do reino. A caminho de Londres, passa por Lisboa o cartógrafo André Bianco.
 Regista-se um maior desenvolvimento dos tratos comerciais na feitoria de Arguim, cuja edificação se verificará dois anos depois, em 1449, por Soeiro Mendes, que ali ficará como governador. O seu início teria sido em 1446, a mandado do infante D. Henrique. Devemos deixar aqui a nota, de que segundo João de Barros, o castelo é mandado erigir por D. Afonso V. Está notícia terá o seu aparecimento mais tarde, já em 1461.
1458: D. AFONSO V CONQUISTA ALCÁCER-CEGUER
 A viragem política, social, económica e religiosa, no inundo ocidental, tinha-se dado com a queda de Constantinopla, em 29 de Maio de 1453 -- foi o fim da Idade Média. Essa célebre cidade, há muito se via acossada pelas investidas turcas. O princípio do fim, dera-se em 1444, aquando da vitória dos turcos sobre um exército de cruzados, perto de Varna, nas margens do Mar Negro. Esta batalha ditou o fracasso do Ocidente, na sua última tentativa para libertar Constantinopla que, como já visto, caiu alguns anos mais tarde. Atenas cairia pouco depois, em 1456, a que se seguiria o Peloponeso. Tremia a civilização ocidental e novas fórmulas se impunham, sendo necessário fortalecer os vários Estados, extremamente divididos nos seus interesses, muito débeis política e militarmente.
 De urna forma muito generalista, temos uma península Ibérica dividida em vários territórios: Portugal, Castela, Navarra, Aragão e o reino muçulmano de Granada. Carlos, 0 Temerário, domina parte da França e os territórios a Norte da Europa; o domínio real francês não é homogéneo ao longo de todo o território; os territórios germânicos estão divididos numa infinidade de bispados, principados, ducados; a sul, temos a República de Veneza, o reino de Nápoles, Roma, Génova e Milão; a Inglaterra esgota-se em guerra fratricidas entre os Yorks e os Lancaster. Não é por acaso que se dá a ascensão dos príncipes e a formação dos Estados modernos. Toma-se premente unir os povos e romper a ameaça vinda de Leste. Já não existe lugar para as pequenas regiões auto-suficientes, cada uma delas mais ou menos auto-suficientes, sobre as quais o poder real se esgotava em constantes lutas de bastidores e intrigalha política. São necessárias medidas de força. É sobre as ruínas da feudalidade, que vai surgir uma nova orgânica de Estado, donde Nicolau Maquiavel se tomou o grande mentor.
 Nesta época de grande agitação, Portugal olhava o oceano Atlântico. Particularmente em 1458, podemos dizer que, desde 1457 e até esse momento, decidira-se interromper as viagens de explorações marítimas, em virtude dos preparativos para a conquista de Alcácer-Ceguer. Imediatamente antes do avanço para a costa africana, é feita uma confirmação régia, relativa à concessão por parte do infante D. Henrique, à Ordem de Cristo, herdeira dos Templários, em Portugal, concessão com a data de 26 de Dezembro de 1457.
 Em Outubro de 1458, parte do porto de Lagos, na costa sul do reino de Portugal, a esquadra invasora chefiada pelo próprio rei, D. Afonso V, filho de D. João I, que consigo leva o infante D. Henrique. Esta seria a última grande missão deste último, uma vez que, logo no ano seguinte, fazia conhecer o seu testamento e, em 1460, falecia, deixando um dos maiores patrimónios pessoais -- o rumo da esquadra: a costa Norte de África; a missão: a conquista de Alcácer-Ceguer.
 A queda de Constantinopla preocupara seriamente Roma e o papa Calisto III, medindo o perigo, pediu ajuda a toda a cristandade. Afonso V prometeu o envio de 12 000 homens, mas o morte do pontífice malogrou a expedição. Aproveitando a mobilizarão militar entretanto realizada, decide-se uma expedição contra o islamismo marroquino. O golpe em Alcácer-Ceguer, desforraria a derrota em Tânger. Embarcando em Setúbal, passou por Sagres e concentrou todas as suas forças em Lagos. Partia, assim, uma armada formada por 220 velas, 25 000 soldados, sem contar com os marinheiros. Os mouros receberam os portugueses nas praias numa vã tentativa de rechaçar as tropas portuguesas, mas foram empurrados para dentro das muralhas. Desembarcada a artilharia (na altura a mais poderosa de toda a Europa), começa o assalto que dura uma noite, ao fim da qual os sitiados se rendem após se baterem bravamente. Em resposta à súplica dos vencidos, o infante pede ao seu rei (e sobrinho) que poupe a vida e os haveres dos que quisessem abandonar a vila. A 48 horas do desembarque, D. Afonso V faz a entrada solene na praça.
1460: O ANO DA MORTE DO INFANTE D. HENRIQUE
 D. Henrique, foi o infante de Portugal, também chamado de o Navegador ou o Infante de Sagres. Foi o quinto dos oito filhos legítimos de D. João I e de D. Filipa de Lencastre. Cresceu no ambiente doméstico, mantido pelo ponderado realismo do pai e vivificado pela suave austeridade mística da mãe. Sendo, talvez, o menos intelectual dos irmãos, era conhecido o seu gosto pela vida activa, interessando-se pela caça, pelas façanhas guerreiras, pela aventura.
 As causas ou razões que impeliram o infante na descoberta de novas terras, tem a ver, essencialmente, com esse seu gosto natural pela aventura, a par das funções naturalmente inerentes à sua condição. Segundo Cadamosto, terá sido "o primeiro inventor" da grande empresa dos Descobrimentos.
 É o ano do descobrimento de cinco ilhas orientais de Cabo Verde, num trabalho de parceria de Diogo Gomes e António Noli. Este último, recebe a concessão da capitania da Ribeira Grande (em Cabo Verde), por Carta régia.
 Diogo Gomes, foi um navegador português. Servidor da casa do infante D. Henrique, viveu na sua intimidade, principalmente entre 1445 e 1446. Em 1457, havia sido encarregue de explorar o rio Gâmbia, em África. Na sua última viagem, em 1460, na companhia do genovês António Noli (ou Nola), descobriu as ilhas de Cabo Verde, que Cadamosto se vangloriava de ter descoberto.
 Foi um escritor inglês, Henry Major, quem primeiro revelou o seu nome e os seus feitos, na sua obra "Life of Prince Henry of Portugal" (Vida do Príncipe Henrique de Portugal), anos mais tarde, em 1868. Nesta obra, a verdade dos factos foi restabelecida.
 Mas o próprio Diogo Gomes também escrevia. Sobre as duas viagens que realizou, escreveu "Relações do descobrimento da Guiné e das ilhas dos Açores, Madeira e Cabo Verde". A ele se deve a primeira menção directa do uso náutico do quadrante, na sua narrativa do descobrimento da Guiné. Diz-se que através do quadrante e de uma pequena tabela, estabeleceu a altura do pólo Árctico...
 Também em 1460, Pedro de Sintra terá alcançado a Serra Leoa, sob a "direcção" do infante. Serra Leoa constituiria, durante algum tempo, o limite das terras descobertas na costa ocidental africana.
 É um ano em que o infante, com certeza antevendo a sua morte, faz a doação de muitos territórios descobertos. Por Carta, faz a doação das ilhas dos Açores, Terceira e Graciosa, ao infante D. Fernando, seu sobrinho e filho adoptivo. Também por carta, oferece as ilhas cabo verdianas, então conhecidas pelos nomes de S. Luís, S. Dinis, S. Jorge, S. Tomás e Santa Joana, a seu sobrinho, D. Afonso V. As chamadas "doações espirituais", também foram contempladas pelo infante, uma forma comum, tanto nesse tempo como durante os séculos seguintes, de criar um ,"superavit" para com o divino. Assim. faz a "doação" das ilhas Terceira e Graciosa à Ordem de Cristo (herdeira dos Templários) e das de S. Miguel a Santa Maria, à mesma Ordem, mas, destas, com total usufruto.
 Em 28 de Outubro deste ano, é conhecido o testamento do infante. Por ele verifica-se que a sua casa senhorial, a do regedor e governador da Ordem de Cristo, duque de Viseu e senhor da Covilhã, estava entre as mais poderosas forças económicas do reino. O grande herdeiro, ficou a ser o infante D. Fernando, seu filho adoptivo, que, assim, passou a deter o maior senhorio de Portugal. Recordemos que o filho de D. Fernando, será o futuro rei de Portugal, D. Manuel I. A 13 de Novembro, morre o infante D. Henrique.
 Ainda durante esta data, é feita a doação pelo rei D. Afonso V, a seu irmão, o infante D. Fernando, das ilhas da Madeira, Porto Santo e Desertas, assim como das ilhas açorianas que lhe haviam sido doadas por seu tio, D. Henrique. Acrescenta, ainda, as ilhas de S. Miguel e de Santa Maria, aquelas que o infante havia confirmado à Ordem de Cristo.
 As cortes convocados para Santarém não chegam a reunir, por doença do rei, tendo sido realizadas mais tarde, em Évora.
O PRIMEIRO VICE-REI DA ÍNDIA
 D. Francisco de Almeida, filho dos primeiros condes de Abrantes, D. Lopo de Almeida e de D. Brites da Silva Malafaia, nasceu em 1450. Começou a sua carreira militar na batalha de Toro e nas praças de Marrocos, tendo auxiliado também os réis católicos na conquista de Granada, cuja rendição se deu em 2.1.1492, quase oito séculos após a invasão do general Tarik, ficando definitivamente encerrado com esta conquista o domínio do islão na Península Ibérica.
 Homem de guerra e profundo conhecedor da vida náutica, foi incumbido por D. João II, em 1493, para chefiar a frota que devia tomar conta das terras descobertas, quando Colombo regressou da primeira viagem à América Central.
 Não chega, todavia, a desempenhar tão alta missão, pois D. João II, fiel à sua hábil e inteligente "doutrina de sigilo", firma com os réis católicos o célebre "Tratado de Tordesilhas", em 7.6.1494.
 Em 1505, D. Manuel I nomeia-o governador-mor da frota da índia por um período de três anos, vindo depois a ser o primeiro vice-rei da Índia. (João de Barros - Ásia Década 2, liv. 3 - p. 10).
 Dispondo de largos poderes em matéria de guerra, justiça e fazenda, D. Francisco de Almeida terá de cumprir o regimento e instruções que el-rei então lhe ordena; o de promover alianças entre os príncipes indígenas, fortalecer o nosso domínio nos mares e erguer fortalezas, para assentar o Estado português na índia.
 Parte em 25.3.1505, com uma frota de 15 naus e seis caravelas, além do navio-almirante, levando muitos fidalgos, capitães, marinheiros, homens de guerra e o seu filho D. Lourenço de Almeida.
 Foi a frota mais poderosa que até então seguiu para o Oriente, segundo nos diz Fernão Lopes de Castanheda.
 Na véspera da partida para a Índia ouviu missa com o monarca na Sé de Lisboa e, após a cerimónia da bênção do estandarte real, D. Manuel I, que o acompanhou até ao embarque na praia do Restelo, despediu-se dele e entregou-lhe esse símbolo da nossa soberania.
 A 22 de Junho desse ano aporta a Quíloa, situada numa ilha da costa de Zanzibar, onde levanta uma fortaleza, tendo de passagem arrasado a antiga Mombaça que, em 1498, tinha sido visitada pela primeira vez por Vasco da Gama.
 Parte depois para Cochim, onde instala a sede do seu governo e aí manda construir um novo reduto, assim como em Angediva, Cananor e Coulão. Em Angediva, ilha do distrito de Goa, levantou a fortaleza de Nossa Senhora das Brotas.
 A ideia política e concepção estratégica de D. Francisco de Almeida para estabelecer um plano de dominar o Oceano Índico e fortificar os alicerces do nosso império no Oriente é diferente da que teria mais tarde o seu sucessor, Afonso de Albuquerque.
 Este assentava a base da supremacia política e comercial dos portugueses na posse da terra, mas, D. Francisco de Almeida, reconhecendo dificuldades de se sustentarem -- no futuro -- posições terrestres, era de opinião e, para isso, se esforçava, que devíamos ser fortes no domínio dos mares. Aliás, como diz Jaime Cortesão, estas duas políticas, embora antagónicas, eram complementares e inteligentes.
 Numa carta que D. Francisco de Almeida escreveu a D. Manuel I podem ler-se estes passos fundamentais do seu pensamento: --
 "Quanto mais fortalezas tiverdes, mais falho será vosso poder: toda a nossa força seja no mar, porque se ne-la não formos poderosos, tudo logo será contra nós. Enquanto no mar fordes poderoso, tereis a índia por vossa e se isto não tiverdes no mar, pouco vos prestará fortalezas na terra " (Academia das Ciências de Lisboa, In "Annaes das Sciencias e Lettras", t. II Lisboa 1859 .)
 Belo pensamento este, de um descendente da nobre família dos Almeidas e dos Malafaias, que deixou o seu governo assinalado por grandes vitórias e excelentes actos de uma sã e boa administração.
 O seu filho, D. Lourenço de Almeida, percorre o litoral da costa do Malabar, dispersa a esquadra do Samorim e leva a nossa bandeira até Ceilão, rico empório comercial explorado pelos mouros.
 Venezianos, turcos e egípcios, entretanto, alarmados com as vitórias e o poderio dos portugueses, firmam uma aliança para nos expulsarem das embocaduras do Mar Vermelho e armam uma imensa e poderosa frota.
 Em Janeiro de 1508 surpreendem a pequena esquadra de D. Lourenço de Almeida, perto de Chaul, em missão de patrulhamento na costa, dando-se nesse local uma tremenda batalha.
 Após uma defesa heróica e em face da superioridade do inimigo, D. Lourenço de Almeida e mais cem companheiros perdem a vida no combate, só regressando a muito custo a Cochim os restantes navios que escaparam.
 Ferido pela terrível nova, D. Francisco de Almeida pensa então numa desforra exemplar. Diz-se que a partir daí modificou o seu carácter e se tornou vingativo e, por vezes, cruel.
 A este propósito, Oliveira Martins comenta:
 "A morte do filho transtornara o seu lúcido espírito, mudando as suas opiniões antigas de estadista, num furor carniceiro, atestado pela devastidão da costa do Gugerât".
 Não se fez esperar, portanto, a vingança de D. Francisco de Almeida, pois, nos fins desse mesmo ano, reúne uma frota de 19 barcos e 1600 homens.
 Logo a seguir, depois de ter arrasado o porto de Dabul, na Cambraia, arremete e sem temor contra os cento e tantos navios dos inimigos coligados que tinham ancorado ao largo de Diu.
 A 3.2.1509 desbarata-os com grande bravura, durante um combate que durou 12 horas e obteve uma estrondosa vitória.
 O historiador Edgar Prestage diz-nos que a " batalha de Diu " foi decisiva para a história da Ásia, acrescentando: "deste tempo em diante o domínio do Oceano Índico permanece durante um século nas mãos dos portugueses".
 Esta batalha cobriu de glória D. Francisco de Almeida, assim ilustrando com o mais belo dos triunfos o final do seu governo no Oriente e restabelecendo a superioridade naval dos portugueses.
 A 19.11.1509 largara D. Francisco de Almeida para o reino e, após ter dobrado o Cabo da Boa Esperança, entrou na "baía de Saldanha" onde ancorou para fazer aguada. Desejando fazer uma inspecção àquela zona e como era um espírito corajoso, intrépido e valente, à frente de 150 homens desembarca, mas entretanto, tem um conflito com os indígenas que aparecem às centenas e o forçam a retirar para a praia onde se encontravam os batéis.
 Por desgraça, o piloto mudou a posição dos navios por causa da ressaca e os nossos tiveram de percorrer uma grande distância na areia ardente e num dia de calor sufocante, desorientados pela nova posição dos navios.
 Extenuados, já sem poderem defender-se, foram perseguidos ferozmente pelos cafres que, nesse dia trágico de 1.3.1510, os assassinaram.
 Este desastre causou no país uma grande emoção e o próprio rei de Espanha, Fernando, "0 Católico", informado por D. Manuel da morte de D. Francisco de Almeida, isolou-se, conforme era uso naquele tempo, quando falecia alguma pessoa de sangue real.
 Jaime Cortesão eleva o seu valor e considera-o: "soldado enérgico e de carácter probo, exacto cumpridor do regimento que o monarca lhe cometera, que ajudou, pela confiança que soube inspirar nos príncipes indígenas, a fundar os alicerces do nosso império do Oriente".
1502: PLANISFÉRIO DE CANTINO
 Neste ano, em que se realizam cortes em Lisboa, registam-se os nascimentos de dois personagens importantes da nossa história: o infante D. João, futuro rei de Portugal, D. João III, e o cronista Damião de Gois.
 A nível de cartografia portuguesa 1502, assume um grande significado pois é a do ano do surgimento do primeiro planisfério português, chamado planisfério de Cantino, no qual figuram desenhados o mapa do Brasil e a costa oriental da Ásia.
 No âmbito da História das Ciências, este nome refere-se a um importante protótipo, que representava o "primeiro padrão" da cartografia positiva, executada segundo métodos de mensuração precisos, segundo os conhecimentos da época. Terá sido executado em Lisboa no decorrer dos dez primeiros meses de 1502, por encomenda de um agente diplomático de Hércules de Este, duque de Ferrara, de seu nome, Alberto Cantino. O fim último, teria sido a intenção do duque tomar conhecimento dos descobrimentos dos portugueses, nomeadamente no continente americano...
 Foi desenhado num conjunto de folhas de pergaminho com 2,20 m de largura por 1,05 metros de altura -- o planisfério dito de Cantino, impressiona pela magnificência e perfeição da iluminura e notabiliza-se pela primazia na demarcação do litoral brasileiro (... ) - registando os descobrimentos de Colombo, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e reivindicava (isto é importante) para Gaspar Côrte-Real, o achado da actual ilha da Terra Nova. Neste planisfério, o traçado do meridiano divisório estipulado em Tordesilhas, possui características "interessantes", pois o cartógrafo que o desenhou, localizado a mais de cem léguas para Oeste da sua posição verdadeira...
 Chamar a este planisfério "de Cantino", acaba por ser uma falácia, pois induz à conclusão de que foi desenhado por este cartógrafo. Na verdade, tomou o seu nome pois foi ele quem o "roubou". Esse célebre cartógrafo italiano, esteve em Portugal nos princípios do séc. XVI, oficialmente como agente diplomático do duque de ferrara, o referido Hércules de Este. Mas, segundo muitos autores, esteve em Portugal com uma missão de espionagem, tendo conseguido subornar um cartógrafo português (desse é que não se sabe o nome), para adquirir o planisfério que, ironicamente, acabou por tomar o seu próprio nome... Hoje, o planisfério encontra-se na biblioteca de Modena.
 Uma outra pista que dá Cantino como espião, é a existência duma carta do cartógrafo, dirigida ao duque de Ferrara, onde faz a descrição, que ouvira de um dos capitães da expedição de Gaspar Côrte-Real, dos perigos que correram os navegadores portugueses e da existência dos grandes gelos.
 Relativamente aos Descobrimentos, temos, neste ano, o descobrimento por António do Campo das, actualmente, chamadas Patta lslands e João da Nova faz a descoberta das ilhas de Ascensão e S. Helena. É, também, o ano da segunda viagem de Vasco da Gama à Índia, com a conquista de Calecut e o estabelecimento de uma feitoria em Cochim. Dá-se início à construção do Mosteiro dos Jerónimos.
1505: DUARTE PACHECO PEREIRA REGRESSA DO ORIENTE
 Nesta data dá-se o início da reforma das Ordenações, trabalho de que são encarregues Rui Boto, Rui da Grã e Joaquim Cotim. Uma grande epidemia de origem tifóide, em Lisboa, faz numerosas vítimas, como era vulgar no tempo.
 As acções militares e outros actos que tinham a ver com este tipo de acção, foram muitos, neste ano: a destruição de Mombaça, por ordem de D. Francisco de Almeida; por ordem régia, Lopes Sequeira faz construir a Fortaleza de Santa Cruz, no cabo de Guer; uma Carta régia, estabelece a orgânica administrativa da Índia; a feitoria de Sofala passa a centralizar o resgate do ouro da costa africana; é, também, autorizada a construção da fortaleza de Mazagão, em Marrocos, pelo rei, D. Manuel I; também por Carta régia, D. Francisco de Almeida é nomeado primeiro vice-rei da Índia, o qual, para além de destruir Mombaça, conquista Quíloa. É igualmente, o ano em que o primeiro elefante visto no reino, chega numa armada da Índia e do início provável da redacção do Esmeraldo de situ orbis.
 Nesta data, vamos deter-nos um pouco na vida de Duarte Pacheco Pereira, o qual regressa, neste ano de 1505, do Oriente.
 Duarte Pacheco Pereira foi um dos grandes heróis lusitanos, cognominado por Camões o "Aquiles Lusitano". Nasceu em Santarém e teve uma educação que o moldou como homem de grande erudição. A carreira escolhida foi a das armas, tendo partido na esquadra do grande Afonso de Albuquerque no dia 6 de Abril de 1503, rumo ao Oriente, capitaneando a nau "Espírito Santo". Chegado a Cochim, derrotou sete vezes consecutivas o Samorim de Calecut, tendo a sua bravura sido muito admirada pelo rajá, o qual pediu a Afonso de Albuquerque que o deixasse ficar no Oriente, pedido que foi atendido. Ficou como "capitão-do-mar" à frente de 150 homens e de uma esquadra de uma nau, duas caravelas, uma chalupa e uma tranqueira.
 Com esta pequena força, voltou a distinguir-se em várias investidos na região, sempre sob a protecção do rajá. Sabendo o Samorim das pequenas forças deste nossos herói, tentou, uma vez mais, expulsar os portugueses do território dando, simultaneamente, uma lição ao rajá que tão bem os acolhera. Reunindo um grandioso exército de 150 mil homens e uma esquadra de cinquenta navios, avançou sobre Cochim. Contra o conselho do rajá que via tudo perdido e não desejando o sacrifício dos soldados portugueses, Duarte Pacheco Pereira, indignado com a sugestão de se retirar para a costa da Arábia, preparou-se para a batalha. O ponto estratégico era o vau do rio Cambalão, o qual foi soberbamente fortificado pelo "Aquiles português", distribuindo habilmente os setenta homens que na altura possuía, combinando as suas posições com o terreno e o que restava dos seus navios; a isto juntou a artilharia de que dispunha, aliás algo numerosa. Às suas forças juntou mil homens de Cochim os quais, segundo a história, fugiram aos primeiros tiros, à excepção daqueles que estavam enquadrados na esquadra portuguesa...
 O Samorim, confiante, investiu em força contra o ponto onde se encontravam os portugueses, mas as dezoito peças da artilharia portuguesa, conseguiram, sucessivamente, repelir as ondas formadas pelo inimigo. As caravelas, as chalupas e as restingas, formavam uma verdadeira muralha, bem defendida por umas dezenas de homens bem treinados e de grande disciplina militar.
 Convencido que a resistência se devia às "artes" do seu comandante, o Samorim tentou afastá-lo da luta numa manobra de diversão, tentando isolá-lo. Mas nem assim conseguiu alcançar D.P.P. que se debateu como um leão ferido. Quando regressou junto dos seus homens, junto do vau, a derrota do Samorim, no local, era já completa.
 Ainda assim, num último fôlego, as tropas do Samorim conseguiram dividir as tropas portuguesas avançando sobre um vau mais distanciado, enquanto mantinha alguma pressão sobre o primeiro. Nem essa manobra lhe valeu pois, uma vez mais, D.P.P. dividiu admiravelmente o que restava das suas forças, mantendo sempre à distância os invasores. Com a subida da maré, os portugueses subiram o rio atraindo os navios inimigos que avançaram com ele rio acima.
 Deixando os seus subordinados a aguentar a pressão das tropas do Samorim, D.P.P. com pequenos grupos de homens, surgiam em emboscadas espalhando o terror. Muito mais há para descrever desta fantástica batalha. Limitamo-nos a acrescentar que, no fim, o corpo-a-corpo foi inevitável e, no meio de muitas perdas, a vitória dos portugueses foi alcançada. O Samorim, profundamente abatido, retirou-se para um mosteiro birmanês e lá passou o resto dos seus dias...
 Uma última nota. Durante os seus tempos no Oriente e onde ganhou fama, as intrigas na corte portuguesa contra ele foram muitas. Acabou trazido a ferros para Portugal, tendo sido encarcerado durante anos. Mais tarde, foi absolvido das acusações, mas morreu na mais completa miséria.
1535: OCUPAÇÃO DE DIU
 A História ocidental no séc. XVI, ficou indelevelmente marcada pelo avanço da ameaça turca. Entre 1520 e 1566, todo o Império Turco é dominado por um nome: Sultão Suleimão II o Grande, às forças do qual, o Ocidente tremeu, tendo sido uma época histórica em que o mundo ocidental poderia ter deixado de existir.
 Já após a conquista de Constantinopla e com a consequente queda do Império Romano do Oriente, os turcos nunca deixaram de investir sempre para Ocidente. Se Mohamed II se apoderara do Império Bizantino, Selim I, imediatamente ao seu reinado, conquista o Curdistão, a Síria, o Norte da Mesopotâmia e o Egipto, conseguindo, o Império Otomano, uma posição de hegemonia no islão. Constantinopla passaria a ser, a partir desta altura, o grande centro da cultura islâmica. Com a morte de Selim I, Suleimão II ascende ao poder, em 1520, como dono e senhor de todo um vasto império; em crescimento, até 1566. Os seus feitos nem nada ficaram atrás dos seus antecessores. Logo em 1521, consegue a tomada de Belgrado; em 1526, após a batalha de Mohács, conquista a maior parte da Hungria, conseguindo-se instalar "às portas" do mundo ocidental. Na Transilvânia, permite aos príncipes feudais conservarem um certo grau de autonomia. Consegue, inclusivamente, uma aliança com a França, contra os Habsburgos. Logo em 1529, faz o primeiro cerco a Viena, o tal momento, como já dito, em que a Europa tremeu. A partir de 1535, orientado para outras paragens, assenhora-se de toda a antiga Mesopotâmia, em 1538 do lémen e em 1546, da Arménia. O seu legado era impressionante. Já só após a sua morte, é que se dá a célebre batalha naval de Lepanto, na qual a frota turca é derrotada por um Ocidente em desespero.
 Diu e toda a sua área envolvente, constituíam um local de grande importância, quer para o comércio, quer para a guerra. Situa-se na costa Sul da península de Guzerate e está dividida por três pequenos territórios: uma pequena ilha que se liga ao continente por um braço de mar, cuja forma alberga um porto, onde vamos encontrara uma fortaleza; uma pequena península, a de Gogolá, a qual constitui a fronteira da cidade e um território, Simbor, que se localiza a Este da cidade, uma ilhota onde se ergue o forte de Pani Kotta.
 A primeira tentativa para a sua conquista por parte dos portugueses, fracassara, em 1531, por D. Nuno da Cunha. Essa tentativa enquadra-se no malogro das negociações efectuadas em 1513, em que os portugueses pretendiam instalar uma feitoria para a região. Mas a história é, realmente, uma caixinha de surpresas e o que se tentara pela via negocial antes e pelas artes militares depois, viria a ser conseguido em 1535 quando, afinal, o território é cedido a Portugal, como recompensa pelo auxílio militar, prestado na luta contra o invasor mongol.
 Três anos após os portugueses se terem estabelecido, Coja Sofar, o senhor de Cambaia, alia as suas forças aos turcos da armada de Suleimão, já mencionado, fazendo cerco a Diu. A fortaleza, após temíveis batalhas, foi arrasada, mas o cerco acabou por ser levantado e a fortaleza reedificada, passando Diu, definitivamente, à posse dos portugueses.
 Todo o distrito, apesar do abandono a que ficaram votados os monumentos portugueses, constitui, ainda hoje, um dos grandes marcos históricos da passagem dos portugueses pelo Oriente. Deixamos como nota de interesse monumental, a velha fortaleza, a sé matriz, do início do séc. XVII, os conventos de S. Francisco de Assis e de S. Tomé, as Torres da Aposta e o forte do Passo Seco, entre muitos outros edifícios.
 (As forças armadas da União Indiana, invadiram e ocuparam o território, em Dezembro de 1961.)
1536: ESTABELECIMENTO DO SANTO OFÍCIO EM PORTUGAL
 Se a invenção da imprensa de deu na segunda metade do séc. XV (l452-1543), por Gutemberg que, em Mogúncia, produz as primeiras peças compostas por caracteres móveis, a instituição da inquisição estrebuchava em horrendos estertores sanguinários. Referimo-nos a ambas pois, dentro de certa medida, são dois factos que, podendo complementar-se na prática, exprimiam espíritos completamente opostos -- a imprensa, como a nova arte de espalhar o conhecimento; a inquisição, uma instituição que, terminada a Idade Média, insistia no esvaziamento do homem como homem, um animal impuro...
 Note-se que, entre 1452 e 1470, a imprensa conquista nove cidades germânicas, quatro regiões italianas, Paris e Sevilha. Nos dez anos subsequentes, instala-se em mais de 100 cidades e, em 1500, existia alguma forma de imprensa em 226.
 Na primeira metade do séc. XVI, onde vamos encontrar a data de hoje (l536), a difusão da nova arte prossegue, se bem que a produção em massa se concentre nas cidades universitárias e nas grandes praças mercantis, locais onde a Inquisição travou duras batalhas (evidentemente, do lado correcto das baionetas, diga-se de passagem). A invenção de Gutemberg deu um grande apoio às duas maiores causas da época: o Humanismo e a Reforma, acelerando o fim das práticas inquisitórias.
 Embora os textos abordem, fundamentalmente, os portugueses, entendemos dedicar a data hoje tratada à inquisição, por, como todos sabemos, ter tido, durante séculos, uma profunda influência na sociedade cristã.
 Esta, não se tomou conhecida propriamente pelo fundamento da sua criação, mas pelos actos de barbárie que cometeu nos séculos seguintes, até à sua definitiva extinção. Inquisição, era a palavra adoptada já desde o séc. XII, quando alguém se apresentava ao juiz como o denunciante de um delinquente. Se fizesse prova das suas afirmações, o segundo seria condenado; se não, sofria ele próprio a pena do talião... Este tipo de "inquisição", promovia a precariedade da repressão pelos crimes.
 Quem primeiro ordenou disposições particulares no sentido especial eclesiástico do termo, foram os papas Lúcio III (ll8l-ll85) e Inocêncio III (ll98-1216), este último, através do Concilio de Latrão, em 1215. Mas a sua forma definitiva para a repressão da heresia, só vem com Gregório IX (l227-1241), tendo sido esta a inquisição que funcionou nos termos pela qual se tornou tristemente famosa, até ao séc. XVI.
 As primeiras congregações de cardeais que levavam a missão a cabo os negócios do "governo eclesiástico", deviam conhecer todas as causas relativas à Fé, desde a heresia em si ao abuso dos sacramentos, tendo tido jurisdição sobre todos os países onde existisse a religião católica.
 Apesar da sua origem pontifícia, a inquisição medieval evoluiu de tal modo que, em menos de um século, se tomou num autêntico tribunal político, daí se explicando muitas condenações de judeus cujos bens eram confiscados. A dada altura, era maior a influência sobre a inquisição dos reis, do que do próprio papado, chegando-se, até, a um ponto onde ambas as instituições se batiam surdamente pelo poder, dentro da cristandade.
 Inicialmente, a luta da inquisição estava virada contra os Albigenses, os Cátaros e os Valdenses; nos séc. XIV e XV, contra os "espirituais", os "Lollards ", os Hussitas e as feiticeiras. Só a inquisição espanhola e portuguesa, é que se bateram contra os judeus e os "cristão-novos".
 Em Portugal, a inquisição foi instituída por D. João III. A função de repressão herética violenta, passou, assim, do episcopado para um tribunal especial, por bula papal de 23 de Maio de 1536. Foi primeiro inquisidor-mor, o bispo de Ceuta, D. Frei Diogo da Silva. As culpas sob alçada inquisitória, foram imediatamente determinadas: práticas judaicas, luteranas e maometanas, feitiçarias, sortilégios e casos de bigamia.
 Sob o poder do primeiro inquisidor-mor, um homem tolerante, nos dois primeiros anos, nada de gravoso ocorreu em Portugal. Mas, com a nomeação do infante D. Henrique, irmão de D. João III, inimigo fidagal dos "cristão-novos", o caso mudou de figura e, nos anos subsequentes, o terror espalhou-se. Deixamos, também, a nota de que, naquele tempo, assistir à queima na fogueira, era obrigatório. Antes de cada pena ser cumprida, a soldadesca arrancava de suas casas os mais renitentes, colocando-os defronte da pira, com os respectivos filhos... As histórias são muitas...
 Na data de hoje, Álvaro Saavedra Céron faz a descoberta da Nova Guiné e Francisco Pereira Coutinho Chega ao Brasil, como primeiro donatário da Baía e André Feio é nomeado como primeiro corregedor de Cabo Verde e Guiné.
 É editada a Grammatica, de Femão Oliveira.
1538: ROQUE LOPES PARTE PARA A ÍNDIA
 Como temos vindo a referir ao longo destas peças a partir do séc. XV, nasce uma nova forma do homem estar na vida. De "mísera poeira" sujeito à vontade de Deus, a única forma de verdadeiro poder, o homem passa a sentir-se como entidade autónoma, capaz de inventar a sua vida, de dirigir o seu destino.
 De uma forma geral, temos abordado, principalmente, o aspecto político com toda a sua influência nos comportamentos. Evidentemente, não é o único factor que se viu modificado. É nas artes que se consegue, de uma forma tão ou mais objectiva, sentir as novas correntes de pensamento, reconhecer as novas orientações.
 Da queda do Império Romano do Oriente, dá-se a fuga dos pensadores bizantinos, cuja contribuição para o surgimento do Renascimento é determinante. E este é um aspecto que normalmente é omisso, quando falamos em Renascentismo. O corte na epistemologia de todo um grande número de coisas, desde as disciplinas em estudo nas universidades, aos próprios métodos de pensamento e que tornou esta nova corrente famosa (é nela que encontramos a matriz do "Homem Moderno") deve-se, antes de mais, a toda a filosofia bizantina...
 Falar de Renascimento é falar do florescimento da Arte em Itália. Este florescimento dá-se, essencialmente, em Florença e em Roma. Em Florença, a ascensão dos Médicis de banqueiros à posição de monarcas, colocou-os numa situação na qual lhes foi possível dar um grande encorajamento às ciências e às artes. Este é um dos grandes factores que conduziu esta cidade ao seu apogeu, sob Lorenzo I, o Magnífico. E por esta ocasião que surgiram as pregações de penitência do dominicano Savonarola, que acabou morto na fogueira, em 1498...
 Em Roma, surgem os papas do Renascimento, os príncipes da mentalidade mundana. Nomes ficaram da época: Alexandre VI Bórgia (l492-1503), Júlio II (l503 até 1513), Leão X, Médici (l5l3-1521); nas artes: Leonardo da Vinci (morte em 1519), talvez o artista-inventor mais famoso no mundo, Rafael Santi (morte em 1520), pintor e Miguel Angelo Buonarroti (morte em 1564), escultor, pintor e arquitecto; nas ciências políticas: Nicolau Maquiavel (l469-1527), de Florença, autor da celebérrima obra, "O Príncipe, o livro do Príncipe.
 Por todos os estímulos vindos de Itália, a Arte da Renascença espalha-se por toda a Europa, adquirindo, em cada país, um cunho nacional próprio. Isto é particularmente notório na arquitectura, de que, em Portugal, o estilo chamado Manuelino, é bom exemplo.
 Falar do florescimento da Arte na Itália, é falar, também, naquilo a que se convencionou chamar de "arte burguesa''. Os nomes mais sonantes na altura, a este nível, terão sido os do pintor Albrecht Durer, o escultor Veit Stoss, o fundidor Peter Visher e de Matthias Grunewald, também pintor.
 Relativamente a Descobrimentos portugueses, neste ano de 1538, temos a partida de Roque Lopes Índia, corno piloto da Nau "Santa Clara". Igualmente para a Índia, parte D. Garcia de Noronha, o qual vai como recém nomeado vice-rei -- o terceiro. Na armada, viaja D. João de Castro, capitaneando a nau " Gripo".
 E também neste ano, que se faz o primeiro cerco a Diu, por Turcos e Rumes (não esqueçamos que alguns territórios na Índia, foram entregues ao portugueses em paga pela ajuda dada por estes no combate contra os turcos).
 Em Portugal, faz-se a anulação do encabeçamento das sisas e sai uma Lei contra a mendicidade.
 É escrito o Roteiro de Lisboa a Goa, de D. João de Castro e faz-se a impressão dos Capítulos das Cortes de 1525 a 1535. Começa a redacção do Roteiro de Goa a Diu, de D. João de Castro, a qual será terminada no ano seguinte, em 1539.
 O português Diogo de Gouveia Júnior, é nomeado reitor da Universidade de Paris.
1599: POVOAMENTO DE PARAÍBA
 Um ano antes da data, em 1598, morre Filipe II de Espanha (o primeiro de Portugal), subindo ao trono Filipe III. Desde esta última data, um surto da chamada "peste pequena" espalha-se pela península, só tendo sido completamente debelada, em 1603; cinco anos de peste, portanto.
 Encontramo-nos numa época em que a Inglaterra já garantira a preservação da sua autonomia perante os planos de interferência de Espanha, a qual saíra derrotada, em 1588, com a aniquilação da "invencível Armada". A partir daí, iniciaram-se vários ataques às possessões espanholas e portuguesas. A Inglaterra partira, definitivamente, para a sua evolução como potência marítima, a par dos franceses e dos holandeses.
 O comércio inglês desenvolve-se extraordinariamente, especialmente com a criação de companhias privadas para o rendimento económico segundo o modelo holandês, em oposição ao método de colonização espanhola da exploração de metais preciosos. Imediatamente ao ano hoje tratado, em 1600, fundam, inclusivamente, a "Companhia das Índias Orientais" para o comércio, assim como a "Companhia da Virgínia", esta última tendo por principal fim a colonização do território. Por Virgínia, no tempo, entendia-se toda a extensa região costeira da América do Norte, que constituiu, aí, a primeira colónia. O nome fora dado por Walter Raleigh, em 1584, em honra da rainha virgem.
 Tudo fora conseguido sob o reinado de Isabel I (l558-1603), filha de Henrique VIII e de Ana Bolena, num tempo de restabelecimento da Igreja anglicana, a qual fora conseguida, principalmente, através de fundamentos políticos e não, propriamente, religiosos.
 Numa altura de submissão do rei português à coroa espanhola, os holandeses ocupam várias possessões ibéricas no Oriente, especialmente territórios sob a "administração" portuguesa. Conseguem, inclusivamente, a submissão completa das ilhas de Banda (Timor situa-se no mar de Banda). Contudo, alcança-se o restabelecimento do monopólio régio sobre o comércio da Ásia... com a frota inglesa a fazer o cerco à barra de Lisboa.
 Inicia-se, em 1599, o povoamento de Paraíba, um dos estados do Brasil, cuja capital tem o mesmo nome. O local é banhado pelo oceano Atlântico, sendo delimitado, a norte, pelo famoso rio Grande, a sul por Pernambuco e, para o interior, pelos vastos territórios do Ceará. Esta é, actualmente, uma das principais regiões de cultura do algodão. O estado fazia parte da antiga capitania de ltamaracá, doada a Pedro Lopes de Sousa.
 Este capitão-donatário, foi um fidalgo do séc. XVI que se tornaria em alcaide-mor de Rio Maior. Era filho do notável colonizador do Brasil e vice-rei da índia, Martim Afonso de Sousa. Chegou a ser escolhido por D. Sebastião para embaixador de Portugal em Castela. Foi o senhorio de várias terras e capitão-donatário das capitanias de Santana e de S. Vicente, as quais haviam sido fundadas por seu pai, no Brasil. Faleceu em Alcácer-Quibir, onde acompanhara o seu rei, tendo, como ele e juntamente com a grande parte da fidalguia portuguesa, sido morto em combate.
 O povoamento da região havia sido iniciado, já, em 1581, na ilha de Gamboa, no rio Paraíba, mas a povoação acabou por ser destruída por piratas franceses que infestavam a área. A própria povoação a que os espanhóis deram o nome de Filipeia, em honra a Filipe II, também essa só foi definitivamente conquistada aos resistentes portugueses, em 1585.
 Deixamos, ainda aqui, a nota de que toda a região da Paraíba, com Pernambuco e com todo o litoral até à Baía, caiu em poder dos holandeses em 1634, seis anos antes da Restauração. Ainda assim, só foram definitivamente expulsos em 1654. A economia da região, foi sustentada durante décadas, pela cultura do açúcar.
 Ainda nesta data de 1599, André Furtado Mendonça, é nomeado capitão-mor do Malabar. É editado o Ratio Studiorum, o regulamento pedagógico das escolas jesuítas e é criada a diocese de Cranganor.
1630: MOTINS E DISTÚRBIOS EM PORTUGAL
Estamos muito próximos do fim do domínio espanhol, sobre a coroa portuguesa. Desde a "monarquia dual" estabelecida por Filipe II de Espanha, em 1580, as coisas tinham vindo a alterar-se, para pior, com os seus sucessores, Filipe II e Filipe IV (o segundo e o terceiro de Portugal, respectivamente).
 Desde o ano anterior, 1629, vários motins, nomeadamente os de Santarém e de Alcácer-do-Sal, ameaçavam o status quo do domínio espanhol em Portugal. Ainda nesse ano, dá-se o famoso motim das maçarocas, na cidade do Porto. A sua origem tinha estado num "pedido de ajuda" do secretário Francisco de Lucena, que fora à cidade, com o intuito de ajudar a Índia. Essa ajuda, traduzia-se em novos tributos. Em resposta, foi atacado pela "arraia-miúda". A população, receava que os novos impostos pudessem recair, também, sobre a fiação tradicional do linho.
 Em Janeiro de 1630, dá-se a profanação das hóstias sagradas na igreja de Santa Engrácia; motins anti-judaicos são registados em Lisboa, Setúbal, Santarém, Torres Novas, Portalegre, Évora e Coimbra.
 A isto se juntou a chamada "juventude cristã-velha" da Universidade de Coimbra, em Fevereiro, que tenta, a todo o custo, expulsar os "colegas" com sangue judaico. Aos estudantes mais velhos, unem-se os "rapazes-moços escolares" que, de 4 a 9 de Março fazem imensos estragos.
 Em resposta aos tumultos, uma Carta régia manda proceder ao confisco dos bens dos "judeus", que abandonassem o reino.
 No meio de toda esta problemática, Portugal via as suas colónias no Brasil, Olinda e Recife, conquistadas pelos holandeses. A 28 de Junho, uma nova Carta régia reafirma o respeito das leis que impediam o desempenho de cargos públicos e quaisquer ofícios da justiça e da fazenda, por "judeus", seus familiares e descendentes. Logo no mês seguinte, novo motim é registado em Setúbal, sendo a reacção imediata dos moradores da localidade contra a "aposentadoria" de um corpo militar aí estacionado.
D. FERNANDO II E GLÓRIA
 A Fragata "D. FERNANDO II E GLÓRIA", o último navio à vela da Marinha Portuguesa e também a última "Nau" a fazer a chamada "Carreira da Índia – verdadeira linha militar regular que, desde o século XVI e durante mais de 3 séculos, fez a ligação entre Portugal e aquela antiga colónia – foi o último navio que os estaleiros do antigo Arsenal Real de Marinha de Damão construíram para a nossa Marinha.
A Fragata recebeu o nome de "D. FERNANDO II E GLÓRIA", não só em homenagem a D. Fernando Saxe Coburgo Gota, marido da Rainha D. Maria II, mas também por ter sido entregue à protecção de Nossa Senhora da Glória, de especial devoção entre os goeses.
 O navio foi preparado para receber 50 bocas de fogo, sendo 28 na bateria (coberta) e 22 no convés. A lotação do navio variava consoante a missão a desempenhar, indo do mínimo de 145 homens na viagem inaugural ao máximo de 379 numa viagem de representação.
 Fragata tinha boas qualidades náuticas e de habitabilidade, designadamente no que se refere a desafogo das instalações, aspecto este de suma importância numa época em que ainda se faziam viagens, sem escala, de 3 meses, com 650 pessoas a bordo, incluindo passageiros.
 A viagem inaugural, de Goa para Lisboa, teve lugar em 1845, com largada em 2 de Fevereiro e chegada ao Tejo, em 4 de Julho. Desde então, foi utilizada em missões de vários tipos até Setembro de 1865, data em que substituiu a Nau Vasco da Gama, como Escola de Artilharia, tendo ainda, em 1878, efectuado uma viagem de instrução de guardas-marinhas aos Açores, que foi a sua última missão no mar, onde teve a oportunidade de salvar a tripulação da barca americana "LAURENCE BOSTON" que se incendiara.
 Durante os 33 anos em que navegou, percorrendo cerca de 100 mil milhas, correspondentes a quase 5 voltas ao Mundo, a "D. FERNANDO", como era conhecida, provou ser um navio resistente e de grande utilidade, tendo efectuado numerosas viagens à Índia, a Moçambique e a Angola para levar àqueles antigos territórios portugueses unidades militares do Exército e da Marinha ou colonos e degredados, estes últimos normalmente acompanhados de familiares. Chegou até a levar emigrados políticos espanhóis para os Açores.
 E entre as missões que lhe foram confiadas, destacam-se a participação como navio-chefe de uma força naval na ocupação de Ambriz, em Angola, que em 1855 se revoltara por instigação da Inglaterra, e, ainda, a colaboração na colonização de Huíla em que, como navio de guerra, teve a insólita e curiosa missão de transportar ovelhas, cavalos e éguas do Cabo da Boa Esperança para Moçamedes (Angola). Colaborou, ainda, com o grande sertanejo António Silva Porto, transportando, em 1855, os seus 13 pombeiros da ilha de Moçambique para Benguela, depois destes terem completado a travessia de África, de Benguela à costa de Moçambique.
 Em 1889 sofreu profundas alterações para melhor servir como Escola de Artilharia Naval, substituindo-se a antiga e airosa mastreação por três deselegantes mastros inteiriços, com vergas de sinais e construindo-se dois redutos a cada bordo para colocação de peças de artilharia modernas, para instrução, utilização que cessou em 1938.
 Em 1940, não estando já  em condições de ser utilizada pela Marinha, iniciou uma nova fase da sua vida, passando a servir como sede da "Obra Social da Fragata D. Fernando", criada para recolher rapazes oriundos de famílias de fracos recursos económicos, que ali recebiam instrução escolar e treino de marinharia, até que, em 1963, um violento incêndio a destruiu em grande parte


domingo, 1 de janeiro de 2017

100.000 VISUALIZAÇÕES

Iniciamos este ano de 2017 com um total de 100.000 visualizações.
Esperamos ter contribuído com este blogue para o enriquecimento cultural dos povos.
Bem hajam.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Ano Internacional do Entendimento Global

Acabamos de encontrar uma variedade nesta emissão: linha parasita no canto inferior esquerdo. Nem todos os rolos tem esta linha, estamos perante uma variedade.

Nesta a linha é mais curta, que aparece de 9 em 9 etiquetas, assim como a de cima.